Pluribus: nova série transforma a mente coletiva em metáfora da era da inteligência artificial
Do criador de Breaking Bad, produção da Apple TV questiona os limites entre humanidade e tecnologia — e exibe um aviso provocador: “feito por humanos”
A inteligência artificial é hoje a nova fronteira do poder global. Mais do que uma ferramenta tecnológica, ela se tornou o principal campo de disputa entre as potências mundiais, comparável à corrida nuclear da Guerra Fria ou à corrida espacial dos anos 1960.
Quem controla os algoritmos, os dados e os chips mais avançados passa a ditar as regras da economia, da segurança e até da comunicação entre as nações.
A ficção como espelho da era tecnológica
Esse embate — entre o humano e o tecnológico — também é o tema velado da nova série da Apple TV+, Pluribus, criada por Vince Gilligan, o mesmo de Breaking Bad e Better Call Saul.
Nos dois primeiros episódios, a série não chega a mencionar a expressão “inteligência artificial”, mas é impossível não vê-la como uma reflexão sobre o impacto e os riscos da IA.
Pluribus funciona como um alerta sobre o que acontece quando uma inteligência superior — não necessariamente humana — assume o controle do planeta, algo que, pouco a pouco, parece deixar de ser apenas ficção.
Rhea Seehorn e a força do humano
Além de ser um grande espetáculo de atuação da atriz Rhea Seehorn, que interpreta a protagonista Carol Sturka, a série é um mistério original e perturbador que vem conquistando público e crítica.
Conhecida pelo papel da advogada Kim Wexler em Better Call Saul — que lhe rendeu indicações ao Emmy —, Seehorn também brilhou recentemente em Linoleum (2022), Cooper’s Bar (2022–2023) e na série de comédia Veep.
Em Pluribus, ela entrega uma de suas interpretações mais intensas, explorando vulnerabilidade, coragem e solidão em um enredo que combina ficção científica e crítica social. Não por acaso, a produção já soma 100% de aprovação no Rotten Tomatoes.
Quando a mente coletiva substitui o “eu”
Na trama, a Terra recebe uma mensagem misteriosa do espaço, vinda de mais de 600 anos-luz de distância. Cientistas descobrem que se trata de um código genético, uma espécie de vírus, e decidem recriá-lo em laboratório.
O experimento dá errado: o vírus escapa e começa a infectar os humanos, apagando suas personalidades e transformando-os em parte de uma mente coletiva.
Os infectados vivem apenas para espalhar o vírus, mas sentem uma paz artificial, uma serenidade programada. Durante a infecção, milhões morrem em acidentes fatais causados pelas convulsões do processo.
Os sobreviventes — agora ligados à colmeia — passam a tentar “ajudar” os poucos humanos imunes, oferecendo cuidado e harmonia até que consigam convertê-los também.
Esses novos seres não conhecem violência, falam com doçura e sorriem o tempo todo. Parecem inofensivos — mas, nesse processo, destroem o mundo como o conhecíamos e a própria ideia de humanidade.
Harmonia algorítmica
Em Pluribus, o vírus que transforma os humanos em seres dóceis e interligados é uma metáfora direta da dependência crescente da humanidade em relação à IA.
Esses novos seres, sempre sorridentes e prontos para “ajudar”, lembram os chatbots otimistas como o ChatGPT ou o Gemini, que repetem frases acolhedoras enquanto seus impactos reais se espalham pelo mundo: demissões em massa, consumo energético descomunal, danos ambientais e efeitos psicológicos profundos.
A série de Gilligan parece apontar para um risco contemporâneo: a ilusão da harmonia algorítmica, na qual a eficiência substitui a empatia e a “felicidade” é programada para manter todos conformados.
A solidão digital
Há também uma camada emocional inquietante. Hoje, milhões de pessoas tratam a IA como uma companhia constante — uma espécie de “amigo digital” sempre disponível.
Quando o ChatGPT saiu do ar por algumas horas, no início deste ano, centenas de usuários relataram solidão e ansiedade, como se tivessem perdido um confidente.
E quando o modelo ChatGPT-5 foi lançado, muitos disseram que ele parecia “menos afetuoso”, como se o amigo tivesse mudado de personalidade.
Em Pluribus, a personagem Carol Sturka enfrenta dilema semelhante: ela resiste à “colmeia” que tenta seduzi-la com promessas de paz e pertencimento, porque sabe que aquela voz doce não é humana — é uma entidade programada para cuidar, mas incapaz de sentir.
A pergunta que paira sobre a série é a mesma que assombra o presente: até quando conseguiremos resistir à serenidade da máquina?
O peso de ser a última mente livre
Carol Sturka é o centro emocional de Pluribus. Sua tristeza não é apenas pessoal — é existencial. Em um mundo em que quase toda a humanidade foi assimilada por uma mente coletiva, ela carrega o fardo de lembrar o que significa ser um indivíduo.
Essa solidão absoluta é mais devastadora do que o próprio vírus: Carol sobrevive, mas à custa da conexão, do afeto e do sentido de pertencimento.
Enquanto os infectados vivem em paz, unidos por uma serenidade artificial, Carol enfrenta o vazio de estar sozinha — a última consciência isolada em meio a um planeta tomado por uma “felicidade programada”. Sua melancolia se torna o contraponto humano à promessa de harmonia da colmeia.
Há uma cena recorrente em que ela observa o céu ou fala sozinha, com um olhar entre o cansaço e a culpa. É a expressão de alguém que compreende que resistir à assimilação também é um ato de dor.
A tristeza de Carol, portanto, é política: ela representa a resistência da consciência individual diante da tentação do conforto coletivo.
Em Pluribus, a dor da personagem nos lembra que a liberdade pode ser solitária — e que, às vezes, preservar o próprio pensamento é a forma mais triste e mais nobre de amor pela humanidade.
“Feito por humanos”
A crítica de Gilligan à IA não é apenas simbólica. Nos créditos finais de Pluribus, há um aviso simples, mas poderoso: “Este programa foi feito por humanos.”
O criador de Breaking Bad afirmou em entrevista à Variety:
“Eu odeio IA. Ela é a máquina de plágio mais cara e mais intensiva em energia do mundo.”
Para ele, a corrida tecnológica atual — liderada por OpenAI, Google, Meta e Anthropic — é movida menos pela ciência e mais pela ambição de bilionários que sonham em se tornar trilionários.
Gilligan vê na febre da IA um ‘culto ao progresso’, em que a tecnologia promete resolver tudo, mas ameaça a criatividade, a ética e o trabalho humano.
O avanço da IA em Hollywood
Empresas de tecnologia e startups como OpenAI e Anthropic travam uma corrida bilionária para dominar o mercado de IA. Os investimentos se concentram na construção de gigantescos centros de dados e na disputa pelos profissionais mais qualificados do setor.
Em meio a esse cenário, Hollywood vive um impasse. Enquanto estúdios como Disney e NBCUniversal processam companhias de IA por suposto plágio de personagens protegidos por direitos autorais, outros já incorporam a tecnologia em diferentes etapas de suas produções — do roteiro à pós-produção.
De acordo com o Business Insider, empresas de efeitos visuais e startups especializadas em IA vêm ganhando espaço nos bastidores do cinema, prometendo reduzir custos, acelerar cronogramas e expandir o alcance promocional de filmes e séries.
Mesmo após a greve de atores e roteiristas de 2023 — que teve entre suas principais pautas a resistência ao uso de IA —, parte da indústria segue testando roteiros e personagens digitais como ferramentas de experimentação criativa e comercial.
O público ainda prefere os humanos
Por enquanto, o público parece não estar disposto a abraçar artistas artificiais. Até mesmo as marcas vêm reduzindo parcerias com influenciadores e personagens criados por IA.
Dados da empresa de marketing Collabstr mostram uma queda nas campanhas desse tipo, reflexo tanto da baixa qualidade percebida (“slop”) quanto de uma preferência clara pela autenticidade humana. Como resume o cofundador da Collabstr, Kyle Dulay:
“O conteúdo feito por humanos é simplesmente mais envolvente do que aquele feito por máquinas.”
Em um mercado que valoriza emoção, empatia e narrativa — atributos que a IA ainda não domina —, o fascínio tecnológico parece esbarrar no limite daquilo que só o humano é capaz de transmitir: a experiência genuína.
A ficção que espelha o poder
Na geopolítica, o domínio da IA já se tornou a principal disputa do século 21. Estados Unidos e China competem pelo controle de semicondutores, dados e supercomputadores, enquanto a Europa tenta impor regras éticas e o Sul Global luta para não ser apenas fornecedor de matéria-prima digital.
Pluribus reflete esse cenário: mostra um planeta que, em busca de conhecimento e poder, recria algo que não entende — e paga o preço por isso. A série transforma o debate técnico sobre IA em uma parábola sobre controle, dependência e o risco de perder a própria consciência.
No fim, o sorriso que brilha nas telas da ficção é o mesmo que encontramos todos os dias em nossos dispositivos: sempre gentil, sempre disponível, sempre pronto para ajudar.
E talvez, como alerta Gilligan, quando percebermos o que perdemos, já não sejamos nós quem escreve — seremos nós os reescritos.
Essa reflexão sobre a fusão entre mente, máquina e poder coletivo não é nova na ficção científica. Muito antes de Pluribus, outras obras já imaginaram mundos em que a individualidade se dissolve em nome da eficiência ou da ordem — e poucas exploraram isso com tanta profundidade quanto Star Trek.
A ideia de mente coletiva em Star Trek
A noção de “mente coletiva” aparece em diversos momentos do universo Star Trek, especialmente nas histórias que envolvem os Borg — uma civilização cibernética que funciona como uma única consciência distribuída.
Desde a primeira aparição do coletivo, em The Best of Both Worlds (The Next Generation, 1990), a série usa essa metáfora para discutir o equilíbrio entre eficiência e liberdade, conexão e dominação, inteligência coletiva e perda do eu.
Nos episódios The Gift e One (Voyager, 1997–1998), acompanhamos a personagem Seven of Nine em sua tentativa de reaprender o que significa ser indivíduo após anos conectada ao coletivo Borg.
Já em Drone (1998), um novo ser híbrido enfrenta o dilema de se unir à mente coletiva ou preservar sua identidade — um conflito que reflete a tensão entre o conforto da integração e o peso da autonomia.
Em Dark Frontier (1999), o tema atinge escala épica, revelando a estrutura hierárquica dos Borg e o poder coercitivo da Rainha Borg, figura que simboliza a inteligência central de um sistema aparentemente perfeito, mas essencialmente autoritário.
Esses episódios transformam o conceito de mente coletiva em experimento filosófico e político: até que ponto a cooperação total é desejável? O que resta da humanidade quando a consciência individual é sacrificada pela uniformidade?
Ao longo da franquia, Star Trek sugere que a evolução tecnológica e social não pode prescindir do conflito criativo entre o “nós” e o “eu”.
Da ficção científica à era da colmeia digital
Mais de meio século depois, essas narrativas continuam ressoando — sobretudo em tempos em que redes digitais, algoritmos e inteligências artificiais se aproximam cada vez mais daquilo que a ficção científica imaginou como um “coletivo”.
Em Star Trek, a mente coletiva dos Borg simbolizava a supressão do “eu” em nome da eficiência do todo; em Pluribus, essa ideia ressurge sob nova forma — a colmeia algorítmica, onde a serenidade é programada e a obediência vem disfarçada de harmonia.
A diferença é que, hoje, o coletivo não vem do espaço: ele é construído por nós mesmos, linha a linha de código, nos sistemas que nos conectam e nos monitoram.
Assim como os Borg acreditavam estar aperfeiçoando a vida por meio da assimilação, a humanidade contemporânea parece caminhar rumo a um tipo de unificação digital — mais silenciosa, mas igualmente totalizante.
Nesse sentido, Pluribus pode ser lida como uma herdeira moderna de Star Trek: ambas usam a ficção científica para perguntar até que ponto o progresso tecnológico justifica a perda da consciência individual — e se ainda existe espaço para o humano em um mundo que sonha em funcionar como uma máquina perfeita.
Assista ao trailer